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S. Martinho, parte IV
Friday, April 23, 2004
  Um blog?

Não, não é um blog...eu queria ter um website normal para publicar isto, mas os meus conhecimentos de Multimédia ainda não são assim muito avançados e prefiro deixar isso para mais tarde...o essencial está aqui.

Disclaimer
Como de costume, a visão aqui exposta é parcial e subjectiva, pelos factos narrados e acima de tudo pela interpretação dos mesmos. Aceito democraticamente objecções e interpretações diferentes das minhas por parte dos outros participantes.

S . M A R T I N H O , P A R T E I V

Em chegando a 2004, começou a fazer-se sentir o bichinho da tradição académica, e apontámos a altura da Páscoa, em que o sol já vai mais alto e a meteorologia é mais favorável.
Os preparativos começaram em Janeiro, quando nem sabíamos para onde ir. Pusemos várias hipóteses; Pousadas de Juventude, a casa do Tiago em Águeda… portanto não podíamos ter ficado mais contentes quando o Daniel nos disse que a irmã lhe emprestava a casa para (mais) um fim de semana da SARIP!

Houve suspense quanto ao número de participantes. Muito cedo o David confirmou a presença (imperiosa, depois da falta de 2003); o Gilberto estaria também por perto, dada a proximidade do Rebolo a S. Martinho. Do Berto não se sabia se conseguiria desmarcar a passagem de avião para a Terceira (início de férias de Páscoa), possibilidade que estava no ar; o Tiago havia dito que talvez, especialmente se conseguisse desbloquear uma verba monetária; o Danish permanecia indeciso como sempre, com aquelas desculpas do tempo: meteorológico (muito frio, muita chuva, etc.) e cronológico (que o fim de semana ia fazer falta para o trabalho de PCRI, quando faltava uma semana e meia para a entrega e ia estar de férias). O Tiago acabou por confirmar a ausência, o Berto permaneceu silencioso... e o Danish manteve a indecisão até à última.

Na 6ª feira, 2 de Abril, a meteorologia estava agoirenta. Levei o casaco para almoçar no ISCA e mesmo assim não tive frio...e chovia, não os aguaceiros primaveris, mas chuva mesmo...
Mas, naturalmente, não desistimos, confiantes que a Providência não nos trairia - embora zarpássemos com alguma apreensão.
Partimos 5, espalhados entre o jipe e o Punto, tendo eu acompanhado o Reinold. O Gilberto reunir-se-ia a nós à noite e o Tiago Nunes, a grande novidade, seria "apanhado" em Picassinos.
A viagem fez-se sem história - até Pombal, onde parámos para lanchar e fazer umas compras alimentares, num hipermercado - não vou dizer qual, mas digo que nos seus anúncios televisivos ficamos a saber que “é goooooooolooooo!". Juventude insolente e irrequieta, logo começámos a fazer estrago. Junto à caixa, estava um expositor de cassetes porno, cujas capas estavam a ser observada por um cliente. O expositor tinha um pormenor engraçado; no topo, tinha um poster da "Alice no País das Maravilhas", indicando que originalmente o expositor se destinava a filmes infantis, mas agora ostentava títulos tais como "A Mansão dos Orgasmos", "Férias Escaldantes" e "Dá-me Por Trás 3." Começámos a dizer os títulos em voz alta, acompanhando com gargalhadas sarcásticas, e pouco depois o tal cliente acabou por fugir envergonhado... enfim, é esta juventude intolerante e desrespeitadora dos dias de hoje.
Ficámos especialmente surpreendidos com os baixos preços da pastelaria, a que não estamos habituados na selvajaria comercial de Coimbra. 1€ por um Sumol e um bolo é algo que eu espero, por exemplo, em Turquel, ou na minha secundária aqui há uns anos , pelo que ficámos quase de boca aberta. Tivemos ainda o prazer de compartilhar o lanche com um senhor, já numa respeitável quarta idade, que se sentou na mesa que havíamos reservado com os nossos sacos. Infelizmente não se mostrou muito conversador. (A culpa foi minha, pois fui eu que tirei o saco para ele se sentar, mas custava-me não o fazer pois ele parecia bastante cansado (da vida), movendo-se lentamente e com a ajuda da bengala - e não havia lugares livres...
Fiquei a conhecer um pouco de Pombal por dentro, onde nunca tinha passado. Gostei de ver ao vivo, pela primeira vez, a Igreja do Cardal, cuja fachada conheço bem dos tempos do Turismo.

Chegámos ao Laserquest às 5. Ah, pois, boa pergunta: estaria aberto?!… Tivemos sorte: o horário indicava algo como “fechado à segunda e terça… aberto à noite à quarta e quinta… abre à sexta a partir das 17.” Mesmo assim, o Daniel teve que telefonar para o contacto indicado na porta para pedir que viessem abrir – certamente que não contavam com clientela tão cedo.
Sendo 5 jogadores, mandava a lógica que não houvesse equipas e que se fizesse com na escola primária se jogava futebol – todos contra todos. O preço sofreu uma pequenina actualização em relação a 2002 – agora é 7.5€ - acompanhando a inflação.
A sensação é a conhecida, mas a adrenalina renova o vício. A minha táctica não foi a mais correcta – eu insisto em armar-me em Rambo, correr, pular, saltar, mas o melhor mesmo é ficar parado sempre no mesmo sítio à espera que os adversários passem na mira. Curiosamente (ou não), a classificação foi muito semelhante à de 2002. Não vou dar pormenores porque me foi claramente desfavorável. No final, sorteou-se uma participação grátis que calhou ao Reinold. O Daniel levou o chupa-chupa destinado ao vencedor.

Cansados – diria mesmo extenuados – e suados, seguimos para Picassinos. Felizmente que o túnel da Cruz da Areia já está completado e aberto, pois, vindos dos pousos, pudemos evitar o centro da minha linda cidade que se encontra, além de atravancado com um delírio do Sr. tomás Todo-Lá-Dentro, esburacado e meio vedado. Entrámos no IC2 e logo depois na Nacional e direcção à Marinha Grande.
Novo aguaceiro quando chegámos a casa do Daniel – aliás, encontrámos pela primeira vez o Tiago Nunes quando se dirigia para lá, abrigando-se da chuva numa paragem de autocarro.
Como sempre que vamos a casa do Daniel, fomos muito bem recebidos. Que belo jantar! Uma enorme quantidade de febras e acompanhamentos vários, bacalhau para o Danish…Falámos de assuntos tão diversos como a competitividade dos moldes chineses e dos mexicanos, ou o prémio que o Sr. Firmino ganhou como provador de vinhos. De lá saímos, mais uma vez, encantados com a hospitalidade.
O Reinold ainda tinha de passar por casa e eu acompanhei-o, tendo os outros (agora já éramos 6) seguido para S. Martinho.

O entardecer, cheio de nuvens mas vermelho, muito vermelho, a poente, com muitas nesgas de céu, era um excelente sinal de que a meteorologia nos queria proteger. O Punto virou à esquerda no Calhau, imediatamente antes de chegar à Nazaré, seguindo pelo atalho que leva directamente à Pederneira (uma zona residencial nova a estrear.) Daí descemos para o Valado.
Ah, o excelente Fatboy Slim! Tivemos uma aparição, no auto-rádio, de “Rockefeller Skunk”, do grande álbum “You’ve Come a Long Way, Baby” de finais dos anos 90. O Valado estava em obras, parecia Leiria – com aquelas valas ao longo das ruas que nunca se sabe se são para canos de esgoto ou cabos telefónicos. Até pensámos que a rua Liberal Rebelo Silva pudesse estar cortada! Felizmente não. Logo à chegada, e enquanto eu abria o porta-bagens, o Rocky veio cumprimentar-me.
Noutra situação (ou se fosse outra pessoa no meu lugar), ver um doberman de meio metro de altura a correr directo a mim podia causar uma atitude defensiva, mas já conheço o Rocky e já sei que ele só quer mimo. Recebeu umas festas e desapareceu logo de seguida, para longe. Diz o Reinold que o cão está a ficar maluco; dá-lhe na cabeça e mete-se a correr pelo Valado inteiro. Espero sinceramente que não venha a ser atropelado.
Em casa estava a Wilma e mais tarde chegou a Sra. Jeannette, que me perguntou o que eu ia fazer depois de acabar o curso (e eu ensaiei o discurso já batido da auto-confiança, “banda larga”, etc.) e a quem agradeci a confiança de nos emprestar a câmara de vídeo nova . Depois de termos partido a lente da outra câmara em 2002 (a mesma com que filmámos em 2003), foi de facto um gesto notável. Ela diz que “vocês já não são nenhumas crianças”, o que foi excelente.

Antes de seguirmos para a última etapa da nossa excursão (porque a sexta-feira, com tantas paragens, mais pareceu uma excursão) passámos pela Naza. O Reinold tem esta necessidade “marítima” de ver o mar, de sentir o mar, de descer a Avenida e depois dar uma voltinha pela marginal para mergulhar naquele contacto profundo que se estabelece entre o Mar e a Terra e que leva as pessoas a dizer quem “quem nasce no mar nunca consegue sair dele…” E eu, mesmo sem ter uma relação tão forte com a Nazaré, não deixei de entrar na mesma onde – a Noite, o Mar, as luzes…
Passado pouco tempo, deviam ser perto de 9 horas, chegávamos a S. Martinho, e pela primeira vez todos reunidos, pois o Gilberto já lá estava. Mas o cenário não foi muito animados – aquilo parecia a festa do Jet Net Set! Havia que animar a cena e daí a minha proposta de abrir uma garrada. Não tanto pelo álcool, suas mentes preversas, mas pelo simbolismo.
O simbolismo da abertura da garrada ficou gravado em vídeo. Não podíamos ter melhor abertura! A rolha saltou das mãos do Daniel e o vinho começou a jorrar para todos os lados! O Daniel encostou a garrafa à porta e os danos foram minimizados. As cortinas foram para a máquina de lavar, ficaram umas manchinhas na parede e uma ou outra nódoa nos casacos… mas nada de grave.
Despejámos os copos e saímos para a noite, a super-noite de S. Martinho do Porto.

Acho que ia gostar de viver em permanência naquela praia. O Mar… um sítio calmo, muito calmo… para quem não conheça bem, pode tornar-se estranho, mas “a noite” em S. Martinho é uma vergonha. O contraste com a Nazaré, cheia de bares de toda a espécie, não podia ser maior. O facto de a Naza ser sede de concelho e S. Martinho mera freguesia não é desculpa; a Praia da Vieira é um minúsculo lugarejo da freguesia de Vieira de Leiria e no entanto a diversidade de bares é grande. S. Martinho, à noite, morre. Tem tanto movimento como o Casal Pardo. Saímos para a rua e o silêncio, a ausência de pessoas, de carros, é impressionante… caminhámos por uma rua interior e encontrámos um café, de que não me lembro o nome, mas recordo que tinha, além do barman, dois velhotes a ver a bola. Um deles parecia ter alcançado o dia em que disse “não fumo mais” e deliciava-se com um chupa-chupa, algo pouco habitual na sua idade. Pedimos os cafés e debatemos, entre outras coisas, locais para onde ir em seguida. Havia a Green Hill, na Foz do Arelho, mas à sexta-feira não havia grande movimento; havia a Naza e os seus bares; havia também o Solar da Paz, também na Foz… (e até o Snoobar…) Bem, mas após ponderarmos todas as hipóteses, decidimos que começaríamos pelo Pirolitos, em Salir do Porto, e depois de veria. Talvez pudéssemos ir às Caráibas. Não, não é a piada habitual, é a “danceteria” Caraíbas situada junto à praia de Salir.

Voltámos para casa, pusemos uns graves no leitor de DVD's e fomos despejando uns copos de vinho, enquanto conversávamos, refastelados nos sofás (“juventude preguiçosa!”), sobre assuntos tão vastos como Kafka, a dança da micose do Sr. Cigano (a quem telefonaram e com quem tive o prazer de trocar umas palavras), os limites físicos do Universo (para o Tiago, o maior mistério que o ser humano enfrenta, como animal físico vivendo num pequenino planeta) e a não convocação do Baía para o Euro. Saímos já minimamente alegres…com excepção do Reinold e do Gilberto, que sendo designados condutores de serviço, estavam igualmente alegres, mas não no sentido que nestes se contextos se dá à palavra.

Seguimos pela Marginal, com o Punto e o Clio do Gilberto, em direcção a Salir do Porto.
Mudamos de freguesia e saímos do concelho de Alcobaça para o de Caldas da Rainha. O rio da Tornada (ou rio de Salir); pequenino ribeiro que por vezes dá para atravessar a pé, mas no máximo não exige mais que umas braçadas, vem desaguar na Baía. As condições naturais do conjunto da Baía são únicas, para fazer praia; uma baía de águas quase paradas, ideal para crianças – e onde é no entanto possível fazer windsurf, como vimos no Sábado (o windsurfista ia tão devagar que fazia lembrar o Hélder, do Benfica, a correr); se chateia, vai-se para Salir, onde há o rio para nadar e a duna para subir; ou a “areola” como dizem os locais, antigamente referida como a maior duna da Europa mas que mingou um pouco devido à erosão. Infelizmente, o rio da Tornada é o esgoto da pecuária suinícola que há cerca de 20-25 anos se instalou na Alta Estremadura – e está tudo dito…

Entrámos no Pirolitos por volta da meia-noite. O célebre Pirolitos, onde o Berto pediu um cigarro a uma desconhecida que lhe deu troco e depois de apresentou como Vânia Raquel, natural de Leiria e "exilada" em Salir do Porto. Foi, afinal, a primeira vez que lá entrámos. E, como bar, não é mau. Tinha snooker e matrecos no primeiro andar… o pessoal é muito comunicativo; quando fui à casa de banho, um indivíduo queixava-se do álcool que não lhe estava a fazer bem e, enquanto mijávamos, conseguimos entabular uma breve conversa sobre as virtudes do vinho e da cerveja comparadas com as bebidas brancas, que só dão ressaca, e a necessidade de não fazer misturas. O senhor estava tão bêbado como eu e a conversa só não continuou porque entretanto eu acabei de mijar e saí.
O irrestível vício dos matrecos. 50 cents por 9 bolas era um preço razoável... mas o melhor era o preço incrivelmente baixo da cerveja. E o snooker, 2.5€ à hora! No salão da Praça, é a 4€... Entre outras coisas, tive a oportunidade de explicar - ou melhor, de dar a minha versão da História - ao Tiago as origens do conflito da Palestina, desde a formação do movimento sionista. Só era pena que, às 2 e meia da manhã, ouvíssemos bebés a chorar - dentro do Pirolitos...uma cena não propriamente saudável.

Quando saímos, pretendíamos subir a Duna…
…mas depois apeteceu-nos caminhar a pé até S. Martinho. O Gilberto já tinha ido embora - parece que tinha que recolher cedo a casa - e o Reinold e o Danish foram no Punto, juntando-se a nós mais tarde. Ás 3 da manhã não estava assim tanto frio e aquele percurso é muito fixe de fazer à noite. Se estiver nevoeiro, como era o caso, ouve-se a sirene da navegação, que dá um ambiente vago e nebuloso . . . ao chegar a S. Martinho, o Daniel propôs que fôssemos ver o mar, o mar propriamente dito, do outro lado do túnel. Concordámos imediatamente.
A Baía, é limitada por dois pequenos promontórios que a separam do mar aberto. No promontório norte, do lado de S. Martinho, foi aberto, julgo que há cerca de 100 anos, um túnel que liga o lado interior ao exterior, desembocando no mar aberto, onde as pessoas costumam pescar. Infelizmente - ou felizmente - não tem qualquer iluminação.

O espectáculo que se nos deparou à saída do túnel é inesquecível e constituiu o momento alto do fim de semana. A lua estava quase Cheia mas ligeiramente tapada pelo manto de névoa que cobria o céu. O mar batia com alguma violência nas rochas, mesmo ali à nossa frente...
Uma pessoa esquece-se da realidade e entra noutro Mundo. O Mar está ali com toda a sua força e todo o seu esplendor… sentimo-nos pequeninos, muito pequeninos, e ao mesmo sentimos que estamos a desafiar uma força superior…é muito difícil de explicar por palavras o que se sente ali. Só estando lá…
O Daniel ainda propôs subirmos o promontório até ao sítio onde, em 2002, filmámos os Backstreet Boys mas achámos isso exagerado, porque também aí não há luz nenhuma. Fomos pacificamente para casa, armámos os sofás para dormir…e apesar disso eu, o Daniel e o Tiago ficámos na conversa até perto das 6 da manhã...é uma boa hora para filosofias vagas…

Sábado
Os lugares de sono foram escolhidos ao acaso, com excepção do meu – fiquei em frente à televisão. Antes de adormecer estive um quarto de hora a trocar cabos de maneira a conseguir sintonizar a RTP; fiz figura de nabo, mas acabei por conseguir. Por isso, assim que acordei, foi só ligar.
O Reinold também acordou, mas eu decidi que só punha o som alto se pelo menos metade do pessoal estivesse acordado. Como a meio da qualificação o Daniel e o Tiago já respondiam (o Daniel esteve meia hora a filmar-nos a olhar para a televisão), levantei o som – e o David começou a queixar-se dos “mosquitos” e do seu zumbido.
Era a qualificação para o GP do Bahrain (ou Barém em português). M. Schumacher fez uma pole espectacular, ficando com uma enorme distância sobre o Barrichello – e apesar de um erro a meio da volta.
Quando acabou, eram horas de almoçar. Eu e o Reinold fomos à rua buscar uns bifes.
Definitivamente, a meteorologia estava connosco. Um céu muito azul, um sol já alto, de Primavera, suficiente para fazer a temperatura, que espectáculo! Quem diria o frio que fizera no dia anterior? A cal das casas do “centro histórico” de S. Martinho do Porto faiscava com a luz. O “centro histórico” não está muito bem tratado, e é típico de uma vila pequena, mas tem um mini-mercado e um talho – donde trouxemos bifes e natas. Já podíamos pensar em ir jogar à bola, à tarde!

Depois de um belo almoço, estivemos a ver uns filmes interessantíssimos no leitor de DVD’s. Pouco depois, tudo para a rua.
O povo respondeu bem à mudança de tempo. Muita gente na rua, no paredão ou simplesmente a passear, e mesmo alguns a trabalhar para o bronze. Ficámos chocados com o resultado dos trabalhos de dragagem que se fizeram na Baía; faltando areia no fundo, a areia da praia foi substituí-la – e o areal encontrava-se bastante reduzido, especialmente no largo do Posto de Turismo. (Para não falar no lixo, mas isso já não é notícia). Para acordarmos definitivamente, um café na esplanada.
O tabaco, a liberdade de fumar, os efeitos a curto e longo prazo e a legislação anti-tabaco na Irlanda foram o tema forte – especialmente confrontando o Tiago, um fundamentalista anti-cigarro, e o Gilberto, viciado assumido. Também se falou de carreiras profissionais nas Forças Armadas – e da utilidade das Forças Armadas para Portugal.
Não estava à espera de pagar 55 cêntimos por um café, depois da nossa experiência no Pirolitos. Por isso é que obriguei o empregado a destrocar 2 €.
Em seguida, um pouco de futebol…o Reinold ainda queria fazer duas equipas, mas não havia condições físicas para isso. Limitámo-nos a uns passes e a umas tentativas de habilidades, daquelas que se vêem nos anúncios do Figo e afins. Como deve ter ficado na câmara, por lá passou uma menina que parecia muito bonita, mas que afinal, e no dizer do Gilberto, “tinha a cara em obras”…
A meio da tarde, despedimo-nos do David, que ia passar uns merecidos dias com a namorada ao Cadaval, e do Gilberto, que com toda a certeza devia ter a mãe à perna e a impedi-lo de sair de casa pois nunca mais lá apareceu.
Chegados a casa, recusámos permanecer fechados a ganhar bolor. Tínhamos uma série de paisagens ao nosso dispôr e decidimo-nos por uma onde nunca tínhamos ido – as falésias entre Salir e o mar. Como dizia o Fernando, “só mesmo de jipe!”
Quando eu era pequeno e só conhecia S. Martinho do ponto de vista da Baía, pensava que do lado de fora da Barra só havia mar, tanto a norte como a Sul. Descobri mais tarde que estava muito enganado.
Pretendíamos ir até à pequena fortaleza que está no promontório sul e conhecer a praia rochosa, do lado de fora. Andámos o que nos pareceu quilómetros por estrada rural, campos amanhados e, ao longe, a costa até à Nazaré. E afinal, a estrada não era aquela!… perto do fim, encontrámos um carro parado e, dado o isolamento do local, suspeitámos de que estávamos a estragar alguma coisa. Voltar para trás, procurar entre as ruas de Salir até encontrar uma que parecia avançar para o mar. Após vários cruzamentos e muitas curvas, desta vez estávamos no caminho certo. Estacionámos num largo onde havia mais dois carros de turistas.
Primeiro fomos até à tal fortaleza. Encontrámos três indivíduos… a quem o Reinold disse olá, pois eram do Valado (toda a gente se conhece nas terras pequenas.) Como antes, o Daniel chamou a atenção para a imensidão de fósseis de conchas que por ali se encontram, “como é possível, não podem ter subido até esta altura!”, as opiniões dividem-se, mas sem sermos da área de ciências não é fácil descobrir a melhor teoria. “Se a água esteve cá em cima, Portugal inteiro estava inundado!” “Então e que estivesse? Estamos a falar de milhões de anos!…”
A fortaleza, minúscula e em ruínas, colocada mesmo em cima da Barra, em frente àquela outra onde estivéramos 2 anos antes e onde o Berto deixou um rasto, é um símbolo de solidão. Somos tentados a atirar pedras para a água, que está muito lá em baixo… a mesma sensação da noite anterior, mas não tão forte – o vento a bater na cara, as Berlengas lá ao fundo, e a imensidão da Terra e do Mar que faz os homens tão pequenos…
Lá de cima, vimos que a praia rochosa estava a ganhar areia e decidimos ir lá abaixo.
Um pouco abaixo do largo de estacionamento, uma situação bizarra: alguém começou a construir um casebre de tijolos, de uma só divisão, muito pequeno – certamente sem licença camarária - e depois deixou-o inacabado, e os tijolos ficaram lá… quem seria e porquê?…
Continuando a descer, eu e o Danish, por cansaço puro, acabámos por desistir e esperar que eles subissem. O promontório da Barra erguia-se muito alto, à nossa direita, muito matagal do lado esquerdo, e a Barra à nossa frente, com S. Martinho lá ao fundo. O sol estava a pôr-se e a sirene de navegação já se ouvia…eu e o Danish tivemos uma discussão teológico-científica; admirávamos as diferentes camadas de rocha, postas em diagonal, que compõem o morro do Facho, que entrava pelo mar dentro à nossa frente (do lado de fora da Baía) e ele insiste que as teorias sobre a tectónica das placas não explicam consistentemente o milagre do Mundo, e remete isso para Deus… e eu não via uma necessária oposição entre a Fé na criação e a explicação científica para o fenómeno. A profundidade do debate não pertence a estas páginas. Voltámos a subir, pensando que o Daniel, o Reinold e o Tiago também tivessem subido. Pouco depois de chegarmos ao jipe, ficámos atónitos – nós estoirados e aqueles caragos a fazer uma corrida para ver quem chegava primeiro ao carro, da-se!!!
Antes de chegarmos a casa, ponderámos as hipóteses para jantar – e optámos por frango comprado directamente na churrasqueira.
Apareceu lá depois aquilo a que eu e o Reinold chamámos a “Pandilha 2” (por analogia com a “Pandilha”), nomeadamente o Sr. Cigano da dança da micose, tendo todos partilhado o nosso jantar.

O início da noite foi um pouco frustrante. A Pandilha 2 estava empenhada em penetrar no universo fechado da super Green Hill, e para lá acabou por ir. Ficámos um pouco pelo Pirolitos, e as ideias não apareciam, até que acabámos por ir também para a Foz… chegámos cedo, lá pela 00:30, o estacionamento da GH ainda não estava cheio – e mesmo assim as mangueiras já se acumulavam à porta… tentámos o Solar da Paz. Debalde. Mesma merda – inclusivamente o segurança chamou de parte um senhor um pouco mais exaltado para lhe explicar o que se passava… há que reconhecer que o Solar se importa com os clientes e inspira confiança, pois ao lado do segurança, de dimensões gilbertianas, estava uma segurança muito jeitosa – que nos remete para aqueles estereótipos que aprendemos em PCRI 2 sobre a feminilidade, o care, etc. No entanto, não nos apeteceu esperar por uma ordem de entrada e basámos.
De volta para S. Martinho… havia um bar na marginal, de que me esquece agora o nome, e poderíamos ficar por lá… mas estava cheio!…
E agora?…Das alternativas viáveis, casa ou Naza, optámos pela segunda.
É sempre um espectáculo renovado, para mim, chegar à Nazaré, à noite, pelo sul, pela estrada de S. Martinho. Sempre me lembro de conhecer a praia mas só recentemente comecei a ir até lá à noite, e à noite a perspectiva é totalmente diferente…
O Seveniks, na Praça Sousa Oliveira, estava bastante cheio e a bombar. Conseguimos umas cadeiras, mas em breve se chegaram as duas da manhã – hora de fechar…
Última hipótese: Barra Bar.
O Barra tem muito espaço e podemos beber Red Bull à vontade. Pessoalmente, foi pena que lá pelas quatro da manhã as forças me abandonassem e confinassem a uma cadeira. Antes disso tivemos oportunidade de conhecer a Helga, a amiga do Reinold.
Saímos bastante tarde…chegámos a casa mais perto das 5 que das 6… mas mesmo assim eu e o Daniel ainda estivemos mais de meia hora à conversa, o sono parecia que não chegava… antes de adormecer já se notava a claridade da madrugada.

Domingo
12:30, horário sagrado. Por uma fracção de segundo imaginei que os dois Ferrari iam chocar um contra o outro e abandonar a corrida. Não estava a sonhar, como comprova a fotografia que pus no blog; mas tudo voltou ao normal, e o raio do Button chegou ao seu segundo pódio consecutivo.
Durou cerca de 1:30 e depois disso havia que almoçar. Dado o cansaço e visto que os Flocos de Milho não se podiam estragar, aí estava o almoço perfeito… o Danish aproveitou para reforçar o bronze e, entretanto, começámos a arrumar…
Saímos a meio da tarde. Meteorologia agradável, semelhante à de Sábado. Era agora que íamos acabar o que não tínhamos feito na sexta-feira – a duna.
E embora nem todos concordassem, acabou por valer o esforço. Havia bastante gente na água; a duna estava povoada de escuteiros que pareciam empenhados em atirar-nos areia para cima; inspirados pelos putos, o Daniel e o Tiago brindaram-nos com alguns rounds de luta greco-romana, a qual nunca tinha assistido pessoalmente; e não podíamos deixar de filmar algumas acrobacias a propósito da descida da duna. Diz o Tiago que é um vislumbre daquilo que sentem os sprinters dos 100m como o Carl Lewis. Não sei o que pensaram as meninas que estavam a olhar para nós…
A filmagem de despedida foi, como não podia deixar de ser, um bocado melancólica, pois pela primeira vez não podíamos dizer, com segurança, “até para o ano.” A filmagem final, com a acção pacificadora do agente Castanheira, serviu para cortar esse efeito.

Eu e o Tiago no jipe e o Danish no Punto, saímos de Salir em direcção a casa. Trânsito moderadamente intenso e lento na marginal – o passeio dos tristes. Na rotunda, mais ou menos a meio caminho entre Salir e S. Martinho, o Daniel vai parando devido aos carros em marcha lenta à sua frente.
“Pah!”
Cacetada na traseira do jipe. “Será que foi o Reinold? Foda-se, não pode ser!”, pensámos.
Não; um Peugeot 206 novo – as meninas que tinham estado a olhar para nós…
Encosta à borda, ver os estragos. Obviamente que ninguém se aleijou, foi um toque mínimo. O Peugeot – feito de caca de passarinho, eu conheço bem esses carros franceses – amolgou-se e partiu um farol; no jipe notava-se um risco mínimo, que mal se via, e nem sequer um farol partido… obviamente que o Daniel mandou-a embora sem mais nada, pois a culpa fora dela e o prejuízo também. Parecia ter tirado a carta há pouco tempo. Enfim, coisas que acontecem.

Parámos em Famalicão, o Danish passou para o jipe enquanto o Reinold seguia para casa. O resto pertence à história.

Conclusão(?)
…é assim, nestas coisas não há conclusão nenhuma a tirar…o Tiago Nunes é um puro espírito saripeano coimbrão…para o ano (supostamente) não há mais…Foi pena, claro, não termos contado com o Berto, o Fábio Tiago – e o Fernando Moreira.
Viva a imaturidade. E a Queima está aí. 
Era uma casa portuguesa/com certeza.../pão e vinho sobre a mesa...

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